TDAH

Depois de tanto tempo ausente do blog e com tanta coisa acontecendo, cá estou para falar sobre criança, família e os distúrbios constantemente diagnosticados e tratados com “drogas medicamentosas”.

Como professora de Ensino Fundamental I em uma cidade enlouquecida como São Paulo, mãe, chefe de uma diarista que tem três filhos adolescentes, tia, amiga de outros pais, presencio constantemente a falta de norte das famílias em relação à educação de seus filhos e o desespero quando desconfiam que algum distúrbio está sendo responsável pelo não “enquadramento” social de sua criança.

Todos os dias, na sala dos professores, na sala de reunião, na cozinha de casa, ao telefone com amigos e parentes, em conversa com as coordenadoras, algum assunto sobre a educação e formação de crianças e filhos vêm à tona. É aquela mãe que não sabe como controlar o filho; é o adolescente que não quer estudar nem trabalhar; o aluno que agride professores e funcionários, que não consegue ficar na classe; a filha que, aos nove anos, não realiza nenhuma lição de casa se a mãe não estiver sentada ao seu lado, dizendo se o que fez está correto, se o caminho é aquele; o pai que quer a receita pronta de como estudar com seu filho e “fazê-lo ir bem na escola”; outros pais que declaram: “agora, com a ritalina, meu filho está mais controlado, não causa mais problema nos encontros em família, não nos envergonha mais em público”…

Uma matéria trouxe esta semana o TDHA para discussão. Compara crianças americanas às francesas, alegando que o modo de vida, a estrutura familiar e a forma como são diagnosticadas faz com que 9% das crianças norte-americanas em idade escolar sejam diagnosticadas como portadoras do TDAH, enquanto este número na França se aproxima de 0,5%. Digo que trouxe o tema para discussão, porque em apenas dois dias de sua tradução e publicação no site http://equlibrando.me, mais de 170 comentários foram postados a respeito da matéria. Nesses comentários estão pessoas parabenizando a notícia, defendendo os argumentos nela apresentados, médicos se isentando da responsabilidade de orientar as famílias em relação à condução da educação de seus filhos, familiares e portadores de TDAH incomodados com o generalismo trazido pela matéria e por alguns comentários ali feitos, contando da dificuldade que é ter tal distúrbio ou ter um familiar com ele etc.

Para situar quem ainda não leu a matéria intitulada Por que as crianças francesas não têm Deficit de Atenção?, o autor compara os encaminhamentos dados nos EUA e na França e, pela forma como conduz o texto, tende a questionar o excesso de pessoas diagnosticadas com o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, apresentando a visão de estudos franceses de que o transtorno não tem sempre origem biológico-neurológica (como consideram nos EUA), mas que pode ter causas psico-sociais e situacionais, podendo, também, ter causas nutricionais. Sendo assim, avaliam primeiro o contexto social subjacente e não o cérebro da criança e o tratamento inicia com psicoterapia ou aconselhamento familiar. Ainda em defesa à metodologia francesa, o autor apresenta que muitas vezes aquele comportamento diagnosticado como TDAH é decorrente de uma educação sem limites claramente estabelecidos e cobrados pelos pais, atribui tal conduta a uma família desestruturada. Alega que crianças que têm os limites claros sentem-se mais seguras, protegidas e aprendem a desenvolver o autocontrole.

Tenho uma predisposição a duvidar de matérias e notícias por seu caráter tendencioso e desta vez não foi diferente. No entanto, apesar de seu generalismo, a matéria traz à tona um aspecto que tem sido muito frequente por aqui, que é a necessidade de diagnosticar e liquidar logo o problema.

Trabalho, atualmente, com crianças de 8 e 9 anos e vejo quantos problemas giram em torno dessa questão. Frequentemente, há crianças que não se enquadram ao sistema escolar e que sofrem diariamente com a situação. Assim, muitas vezes vemos alunos sendo medicados prematuramente, famílias ausentes, poucos limites e orientações sendo dadas, pais com sentimento de culpa ou com discursos lindos, mas que, nas entrelinhas, demonstram total inaptidão ou aceitação para lidar com a situação.

Seria injusto dizer que as situações acima citadas prevalecem e leviano afirmar que o TDAH poderia, nas suas mais variadas manifestações, ser apenas controlado por meio de uma reestruturação familiar, por uma reeducação alimentar ou acompanhamento psicopedagógico. No entanto, o que vemos na realidade escolar é sim uma dificuldade da família em trabalhar com as reais necessidades de uma criança com o Transtorno, da escola em acolher, entender e proporcionar recursos para que essa criança faça parte do contexto e de profissionais da saúde em dar diferentes encaminhamentos e realizar tentativas antes de submeter uma criança a um medicamento tão forte e que serve como um controlador, agindo no sintoma e não na causa.

Como comenta no site, Lúcio Amorim, que possui TDAH, “de fato, [usar ritalina] em crianças eu não vejo necessidade (…). No entanto, muitos pais ansiosos para que seus filhos ‘se enquadrem na normalidade’ botam o moleque pra tomar anfetamina antes mesmo de um diagnóstico preciso da sua condição. (…) Como toda condição passível de tratamento psiquiátrico/psicológico, o TDAH em si não é um problema, problema é um CONTEXTO (…). Cada um pode ter uma necessidade diferente de medicação – eu defendo, aliás, que a medicação seja o ÚLTIMO estágio de ‘tentativa’ para resolver o problema, não o primeiro.”

Sobre dotamanhodeumbotao

Mariana Tambara. Professora, pedagoga, esposa, mãe, mulher... nesta ordem e em outras também, com vontade de pensar, falar, discutir, entender, questionar, criticar educação. Convido todos os visitantes a fazer o mesmo. Vamos?
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