Inclusão: o que isso significa?

Acabei de descobrir um belíssimo texto, mesmo que por um caminho torto. Vou explicar:

Todos os dias, os canais de comunicação colocam em pauta a baixa audiência do novo programa de Fátima Bernardes. O tempo todo procuram argumentos para o criticar. O argumento de hoje me chamou à atenção por se tratar de um assunto que me instiga, me encanta e pelo qual tanto brigo: a inclusão.

Ao longo da notícia postada pela Folha, a autora diz que a jornalista Patrícia Trindade, mãe de uma criança autista, não gostou da abordagem do debate sobre inclusão e que o programa tratou de modo superficial a questão e que apresentou estereótipos.

Realmente deve ter sido, mas o texto de Patrícia é muito mais do que uma crítica à Fátima e ao “Encontro”! Ela traz um olhar, uma crítica, uma leitura que devem ser divulgados, discutidos parte a parte e disseminados.

É com grande satisfação e com o cuidado de não ser “superficial”, como a Folha também foi, que posto o texto dela na íntegra!

SEGUNDA-FEIRA, 9 DE JULHO DE 2012
Mães Especiais: Desencontro, com Fátima Bernardes

Na última quinta-feira, foi ao ar uma matéria sobre inclusão no programa Encontro, da Fátima Bernardes. Desde que a produção do programa contactou a Divertivendo, escola em que o Luca estuda, e autorizamos a realização de imagens e ficamos sabendo do empenho da equipe que ficou das 9h às 17h na escola gravando depoimento e fazendo imagens das crianças, criamos uma espectativa muito grande em relação ao conteúdo do material que seria exibido. Falar sobre inclusão em uma TV aberta, com o prestígio de uma jornalista do quilate da Fátima Bernardes, é uma chance de ouro para expor os nossos problemas, tocar na ferida da vergonha que é a inclusão nesse país e chamar a atenção de autoridades, diretores de escolas, professores e pais de alunos neurotípicos para o fato de que todos só têm a ganhar ao conviver com as diferenças.

Bom, é com imenso pesar que digo que fiquei muito decepcionada com o programa. Como jornalista, achei que foi superficial. Faltou, no mínimo, ouvir todos os lados. É básico. Você aprende no primeiro período de faculdade. Mesmo se não aprendesse, é o que diz o bom-senso. Como mãe de criança especial, fiquei triste. E revoltada.

Não vou citar nomes. Conhecia (mesmo que de facebook ou de listas de discussão no yahoo) boa parte dos entrevistados e das pessoas que estavam ao vivo. Em primeiro lugar, o tema é sério e foi tratado em meio a comemorações, piadinhas e entradas ao vivo de torcedores e jornalistas sobre a conquista da Libertadores do Corinthians na noite anterior. Nada contra os corintianos. Sou casada com um, o meu filho mais velho, o Thiago, de 5 anos, faz parte do “bando de loucos” e estou tentanto trazer o Luca, meu caçula de 4 anos, se manter fiel ao meu time do coração, o Atlético-MG. Mas, as entrevistas e as matérias gravadas eram interrompidas toda hora com piadinhas e depoimento das pessoas nas ruas de São Paulo sobre o Timão. Completamente fora de contexto.

O programa é ao vivo e o minuto na Rede Globo custa muito caro. Sabemos disso. Por isso, as pessoas que fossem escolhidas para falar, tinham de realmente dar um quadro do que é a inclusão no Brasil. Entrevistaram um senhor de um órgão público qualquer, que disse com todas as letras que existem sim programas públicos de atendimento a autistas e outras síndromes no Rio de Janeiro.

Meu senhor, existem dois: o Cema, na Av. Presidente Vargas, cuja lista de espera é de 70 crianças e existe o Instituto Fernandes Figueirae, da UFRJ, em Botafogo, que já não aceita novos pacientes há mais de dois anos. Conheço ONGs que cobram quase o valor das sessões normais. Outras são gratuitas, mas exigem que você tenha renda familiar de um salário mínimo! Realmente, quem ganha mais do que R$ 600 por mês já pode pagar todo o tratamento para os seus filhos autistas! Os profissionais cobram de R$ 70 a R$ 200 por sessão. Os planos de saúde reembolsam, quando reembolsam, R$ 25 de consultas e o número de especialidades é limitado.

Uma criança autista precisa de 15 a 20 horas semanais de terapia – fora a escola -, com fono, terapeuta ocupacional, psicóloga, nutricionista, psicomotrista e alguma intervenção sensorial. É o mínimo. O ideal é que tenha ainda equoterapia, ginástica olímpica, natação, psiquiatra e terapias especializadas como ABA, Floortime, DIR e outros. Tudo isso é gratuito em países como os Estados Unidos e Austrália, por exemplo.

Escolheram uma mãe para falar no programa (não estou criticando a mãe, mas a escolha), que tem uma criança hiperléxica, que fala e lê desde os dois anos. Tem problemas na sociabilidade e por isso está no espectro autístico. Mas, de novo, sem criticar, nem querer comparar a dor de cada um, isso não traduz, nem de longe, o drama da maioria dos autistas e das suas famílias. A maioria não fala na primeira infância. 50% não vão falar nunca. A alfabetização é um custo, algo muito difícil para eles. A figura do autista que a gente conheceu no filme “Rain Man”, que decora a lista telefônica, faz contas absurdas de cabeça e memoriza tudo o que vê pela frente, representa menos de 10% dos casos. Esses são os conhecidos “savants”, que têm uma inteligência acima da média.

Fiquei triste, porque o programa reforçou duas coisas que as pessoas de maneira geral pensam: que inclusão é fácil de se fazer (é só jogar uma criança diferente numa sala de 25 alunos e pronto!) e que os autistas são pessoas privilegiadas, com uma inteligência fora do normal, que só não conseguem se expressar e se relacionar direito. Afinal, tem muita gente famosa autista: Einstain, Bill Gates, Leonardo da Vinci… sim, todos esses estão nos 10% do Rain Man.

Inclusão poderia ser fácil de se fazer, se vivêssemos em um mundo que tolerasse as diferenças, o que não é verdade. Nossa sociedade discrimina quem é magro demais, gordo demais, preto demais, asiático demais, branco demais, indígena demais, pobre demais, rico demais, feio demais, baixo demais, alto demais….

No dia em que pais de crianças neurotípicas se derem conta que o filho dele vai crescer um ser humano mais tolerante, civilizado e melhor se conviver com a diferença desde novo, a inclusão vai acontecer. Quando as escolas se derem conta que os diferentes precisam de currículo adaptado para continuarem acompanhando os colegas, a inclusão vai acontecer. Estamos a centenas de anos disso… Conheço uma mãe que já foi a mais de 70 escolas para incluir seu filho autista de 14 anos que fala, lê, faz conta e escreve, mas não consegue, por exemplo, fazer conta de raiz quadrada, nem escrever com letra cursiva.

Será que as pessoas têm noção de como é difícil para uma criança que veio ao mundo física, emocional e neurologicamente programada para ter dificuldade em aprender e se socializar (duas coisas que se faz na escola), conseguir escrever, ler, falar e entrar numa sala de aula sem surtar em pânico? E as pessoas querem que ela só siga na escola se souber fazer raiz quadrada???? É demais para mim, sério… A desculpa das escolas é que se ele usar calculadora para esse tipo de cálculo, os outro pais vão querer que seus filhos também usem.

Sim, esses pais existem, minha gente. Tem mãe/pai que tira seu filho da escola se ela tem muito menino “esquisito”. A entrevistada do Encontro contou que um pai ligou para a casa dela dizendo que não estava gastando um dinheirão com o seu filho para ele conviver com gente “doida”. Posso ficar aqui até amanhã contando casos absurdos que eu ouço de outras mães, companheiras de dor e angústia nos meus grupos de discussão na internet e na vida real. O Luca fez 4 anos agora. E tenho medo do que ele e a nossa família vamos encontrar pela frente no quesito inclusão. Mais: tenho medo do bicho que eu vou virar quando me deparar com esse tipo de coisa, esse tipo de pai, esse tipo de escola, esse tipo de professora… Como boa mineira, dou um boi para não entrar na briga, mas também dou uma boiada para não sair! Na verdade, essa é uma briga na qual já entrei. E de cabeça.

A primeira escola que o Luca frequentou, onde ele ficou seis meses, me ligava para buscá-lo mais cedo quase todos os dias, pelos motivos mais estapafúrdios: porque ele não queria ficar de tênis (no calor de matar desse Rio de Janeiro), porque ele fazia birra (claro, na primeira birra que ele fez, a professora-ajudante o levou para o parquinho e ele descobriu que esse era o caminho mais fácil para se divertir)… e por aí afora. Quis colocar uma mediadora, mas eles não aceitaram. Sugeriram, nas entrelinhas, que eu o medicasse. Medicar uma criança que não tinha nem 3 anos!!! É esse o país da inclusão. Que manda dopar suas crianças para que elas entrem em sala quietas, mudas, sem falar, sem aprender, sem evoluir.

Não existe inclusão nesse país! De forma geral, o quadro é assim: Os pais de filhos neurotípicos fingem que aceitam as diferenças, as professoras fingem que estão preparadas, a escola finge que está confortável com a presença desse “ser incômodo”, o governo finge que tem programas de especializados e gratuitos, e nós, mães e pais especiais, fingimos que não dói ver nosso filhos à margem da educação. Pensando bem, agora, depois desse post em tom de desabafo, a coitada da Fátima Bernardes não tem culpa do que aconteceu no “Desencontro” da última quinta-feira. E falo isso sério, sem ironia. O programa dela foi, na verdade, o retrato da inclusão no Brasil: superficial, nada objetivo, com pouco tempo para discussão e mais preocupado com o futebol do que com a educação!

Até a próxima,

Mariana Tambara

Sobre dotamanhodeumbotao

Mariana Tambara. Professora, pedagoga, esposa, mãe, mulher... nesta ordem e em outras também, com vontade de pensar, falar, discutir, entender, questionar, criticar educação. Convido todos os visitantes a fazer o mesmo. Vamos?
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3 respostas para Inclusão: o que isso significa?

  1. Resolvi comentar meu próprio post, aliás, o da Patrícia Trindade, postado aqui no meu blog:

    Trabalhei durante cinco anos acompanhando alunos com NEE em sala de aula e (coincidência ou não) em todas as escolas por onde passei como professora, havia uma preocupação com a inclusão. Mesmo assim, vejo e sinto quanta fragilidade ainda há em todo este processo e no sistema de ensino como um todo.

    Parece que às vezes a dificuldade em incluir se dá por diversos aspectos: pela recusa, pela não aceitação, pelo desconhecimento, pela falta de preparo, pela falta de unidade de propósitos, até mesmo por pouca sensibilidade. Assim, na maior parte das vezes me deparo com discursos que não condizem com a prática e, claro, isso me entristece e me angustia.

    Não sei quando nem por que iniciei minha briga pela inclusão, mas acho que o fato de ter iniciado minha vida escolar em um ambiente em que todos eram diferentes, ninguém era tratado como igual, mas com igualdade, fez com que me fosse até hoje difícil aceitar quando alguém não é tratado com o mesmo respeito ou mesma consideração.

    Vejo claramente dois movimentos “anti-inclusão” na nossa sociedade: movimento de exclusão, quando não aceitam o diferente, o rejeitam, o eliminam ou o ignoram; e o de negação: quando inserem ou acomodam o sujeito no ambiente, no grupo, mas não dão recursos para que ele realmente participe daquele contexto. Penso que me sensibilizei com o texto porque ele fala isso por alguns ângulos. Mas, principalmente, pelo olhar daquele que está prestes a viver toda esta briga; daquele que já começa a angariar forças para enfrentar as dificuldades que vêm pela frente!

    Até,
    Mariana Tambara

    • Carol disse:

      Muito bacana e infelizmente real esse texto !
      Acho que existir pessoas como vc já é uma luzinha nessa escuridão de tanta gente ignorante e preconceituosa ! E uma pequena chama já clareia um grande breu…
      Orgulho de vc mocinha !!!
      Carol

      • Obrigada, Carol!

        Minha irmã, ao ler o texto, disse que estava muito triste por se deparar com esta realidade e que queria ser diferente. Eu disse a mesma coisa a ela. Não podemos mudar o mundo, mas podemos despertar aqueles que estão ao nosso entorno!

        Beijo grande e obrigada por acompanhar meu blog,
        Mari

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