TDAH

Depois de tanto tempo ausente do blog e com tanta coisa acontecendo, cá estou para falar sobre criança, família e os distúrbios constantemente diagnosticados e tratados com “drogas medicamentosas”.

Como professora de Ensino Fundamental I em uma cidade enlouquecida como São Paulo, mãe, chefe de uma diarista que tem três filhos adolescentes, tia, amiga de outros pais, presencio constantemente a falta de norte das famílias em relação à educação de seus filhos e o desespero quando desconfiam que algum distúrbio está sendo responsável pelo não “enquadramento” social de sua criança.

Todos os dias, na sala dos professores, na sala de reunião, na cozinha de casa, ao telefone com amigos e parentes, em conversa com as coordenadoras, algum assunto sobre a educação e formação de crianças e filhos vêm à tona. É aquela mãe que não sabe como controlar o filho; é o adolescente que não quer estudar nem trabalhar; o aluno que agride professores e funcionários, que não consegue ficar na classe; a filha que, aos nove anos, não realiza nenhuma lição de casa se a mãe não estiver sentada ao seu lado, dizendo se o que fez está correto, se o caminho é aquele; o pai que quer a receita pronta de como estudar com seu filho e “fazê-lo ir bem na escola”; outros pais que declaram: “agora, com a ritalina, meu filho está mais controlado, não causa mais problema nos encontros em família, não nos envergonha mais em público”…

Uma matéria trouxe esta semana o TDHA para discussão. Compara crianças americanas às francesas, alegando que o modo de vida, a estrutura familiar e a forma como são diagnosticadas faz com que 9% das crianças norte-americanas em idade escolar sejam diagnosticadas como portadoras do TDAH, enquanto este número na França se aproxima de 0,5%. Digo que trouxe o tema para discussão, porque em apenas dois dias de sua tradução e publicação no site http://equlibrando.me, mais de 170 comentários foram postados a respeito da matéria. Nesses comentários estão pessoas parabenizando a notícia, defendendo os argumentos nela apresentados, médicos se isentando da responsabilidade de orientar as famílias em relação à condução da educação de seus filhos, familiares e portadores de TDAH incomodados com o generalismo trazido pela matéria e por alguns comentários ali feitos, contando da dificuldade que é ter tal distúrbio ou ter um familiar com ele etc.

Para situar quem ainda não leu a matéria intitulada Por que as crianças francesas não têm Deficit de Atenção?, o autor compara os encaminhamentos dados nos EUA e na França e, pela forma como conduz o texto, tende a questionar o excesso de pessoas diagnosticadas com o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, apresentando a visão de estudos franceses de que o transtorno não tem sempre origem biológico-neurológica (como consideram nos EUA), mas que pode ter causas psico-sociais e situacionais, podendo, também, ter causas nutricionais. Sendo assim, avaliam primeiro o contexto social subjacente e não o cérebro da criança e o tratamento inicia com psicoterapia ou aconselhamento familiar. Ainda em defesa à metodologia francesa, o autor apresenta que muitas vezes aquele comportamento diagnosticado como TDAH é decorrente de uma educação sem limites claramente estabelecidos e cobrados pelos pais, atribui tal conduta a uma família desestruturada. Alega que crianças que têm os limites claros sentem-se mais seguras, protegidas e aprendem a desenvolver o autocontrole.

Tenho uma predisposição a duvidar de matérias e notícias por seu caráter tendencioso e desta vez não foi diferente. No entanto, apesar de seu generalismo, a matéria traz à tona um aspecto que tem sido muito frequente por aqui, que é a necessidade de diagnosticar e liquidar logo o problema.

Trabalho, atualmente, com crianças de 8 e 9 anos e vejo quantos problemas giram em torno dessa questão. Frequentemente, há crianças que não se enquadram ao sistema escolar e que sofrem diariamente com a situação. Assim, muitas vezes vemos alunos sendo medicados prematuramente, famílias ausentes, poucos limites e orientações sendo dadas, pais com sentimento de culpa ou com discursos lindos, mas que, nas entrelinhas, demonstram total inaptidão ou aceitação para lidar com a situação.

Seria injusto dizer que as situações acima citadas prevalecem e leviano afirmar que o TDAH poderia, nas suas mais variadas manifestações, ser apenas controlado por meio de uma reestruturação familiar, por uma reeducação alimentar ou acompanhamento psicopedagógico. No entanto, o que vemos na realidade escolar é sim uma dificuldade da família em trabalhar com as reais necessidades de uma criança com o Transtorno, da escola em acolher, entender e proporcionar recursos para que essa criança faça parte do contexto e de profissionais da saúde em dar diferentes encaminhamentos e realizar tentativas antes de submeter uma criança a um medicamento tão forte e que serve como um controlador, agindo no sintoma e não na causa.

Como comenta no site, Lúcio Amorim, que possui TDAH, “de fato, [usar ritalina] em crianças eu não vejo necessidade (…). No entanto, muitos pais ansiosos para que seus filhos ‘se enquadrem na normalidade’ botam o moleque pra tomar anfetamina antes mesmo de um diagnóstico preciso da sua condição. (…) Como toda condição passível de tratamento psiquiátrico/psicológico, o TDAH em si não é um problema, problema é um CONTEXTO (…). Cada um pode ter uma necessidade diferente de medicação – eu defendo, aliás, que a medicação seja o ÚLTIMO estágio de ‘tentativa’ para resolver o problema, não o primeiro.”

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Descobrindo um pouco mais a cada dia

A conversa de hoje com a minha pequena foi a mais esclarecedora. Aos poucos, ela vai juntando as pecinhas, o assunto não a assusta e ela se aproxima da verdade sem um choque de realidade.

Mais uma vez, o tema “como os bebês nascem” veio à tona. Desta vez, porque ela pegou um livro na biblioteca da escola que conta sobre a origem dos bebês.

Ouvir aquela história, imaginar como as coisas acontecem, ver o óvulo e o espermatozóide desenhados e o como se encontram gerou um misto de satisfação por saber mais e uma necessidade de acomodar aquele novo conhecimento.

Incluir os órgãos genitais na conversa ainda parece cedo, porque ela ainda está descobrindo o dela. Então, quando o livro traz a ideia do “ficar abraçado”, a tal sementinha, enfim, se aproxima mais do seu destino. Ufa, que alívio, uma lacuna a menos na informação! Ao mesmo tempo, gera um conflito com aquilo que minha filha havia construído em sua cabecinha como imagem: casal indo ao médico, para que ele ligue a semente à barriga.

Daí vem a conversa:

– Mamãe, é verdade aquilo que o livro que a gente leu ontem falou, que os pais ficam abraçadinhos para a sementinha entrar no ovo? Ou os pais têm que ir ao médico para o médico colocar a sementinha do pai na mãe para o filho nascer?

– É verdade, filha. Normalmente não precisa do médico. O pai põe a sementinha na mãe em casa.

– Oba! Então, quando eu estiver na escola e você for fazer meu irmãozinho, eu vou querer que você faça um livro, porque eu quero saber como é, quero ver!

– Mas não é quando você está na escola. Normalmente é de noite, quando os pais vão dormir. É por isso que os pais têm que dormir na mesma cama e os filhos podem dormir separados.

– Ah, que legal! Então você pede pro papai colocar hoje uma sementinha para o meu irmãozinho nascer?

– Bom, não é bem assim. Não é sempre que o ovinho está pronto. Sabe quando a mamãe menstrua? Então, é porque não deu para colocar.

– Tá, então quando der você me conta.

Pronto! Mais um passinho foi dado!! Prova disso foi a fala final, antes de minha pequena me dar boa noite:

– Hoje é o dia mais legal! Essa foi a noite que eu mais gostei!

Não sei se este é o caminho, nem se há um. O que sei é que não mentir, não negar a informação, mas dosá-la de acordo com a leitura que fazemos do momento e com o que ela traz como questionamento têm sido importante e têm propiciado momentos especiais de descoberta. Tanto para minha filha como para mim como mãe!

Mariana Tambara

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Qual é a cor do amor?

Esta semana minha coordenadora pediu que eu adaptasse um livro para uma apresentação de fantoches que aconteceria em um evento no colégio. Ficou bonitinho, quero compartilhar com aqueles que me acompanham aqui:

Qual é a cor do amor?

(Texto adaptado do livro de Linda Strachan)

Numa manhã linda e ensolarada, o elefantinho cinzento acordou com uma grande dúvida: qual seria a cor do amor? Resolveu, então, sair pela floresta para encontrar a resposta. Caminhando, encontrou o elefante e perguntou:

– Vovô elefante, qual é a cor do amor? Será que é verde?

O velho e carinhoso avô, conhecendo bem o verde das árvores e da grama, respondeu:

– Não sei se isso é verdade, mas a grama é verde, então, talvez, o amor seja de outra cor… talvez azul…

O elefantinho cinzento, querendo confirmar a resposta do vovô elefante, saiu à procura de outro amigo para perguntar. Logo encontrou o tigre:

– Amigo tigre, qual é a cor do amor? Será que é azul?

O tigre pensou, deitou-se, rolou pela grama, pensou mais um pouco e, olhando para o alto, respondeu:

– Não sei a resposta, meu caro amiguinho; o céu é azul…, então, talvez, o amor seja de outra cor… talvez o amor seja amarelo!

O elefantinho cinzento não saiu satisfeito. Se o amor não é verde, não é azul, será que é amarelo? Caminhando e pensando, encontrou o preguiçoso leão, deitado em uma grande pedra, debaixo do sol:

– Amigo leão, qual é a cor do amor? Será que é amarelo?

O leão, muito cansado para brincar e dar atenção a quem passava, sem fazer muito esforço, olhou o pequeno e curioso elefantinho com apenas um olho, bocejou e respondeu:

– Uóóaaahhh!!! Este sol quente que está em cima de nós é amarelo, então, talvez, o amor seja de outra cor… Uóóaaahhh!!! Será que o amor não é vermelho?

– É, pode ser. – respondeu o elefantinho não muito convencido.

Andando e pensando nas cores, o elefantinho cinzento ouviu um barulho que vinha de cima de uma árvore. Era uma arara. Imaginando que a arara, por voar por toda a floresta, seria um animal sabido, resolveu confirmar:

– Amiga arara, qual é a cor do amor? Será que é vermelho?

A arara, olhando para suas penas e para as flores do galho em que estava, respondeu:

– O vermelho é das flores, o amor é brilhante… portanto, é bem simples: o amor é branco!

“Será?”, pensou o elefantinho cinzento. “Pode ser!”

E saiu, imaginando um amor branco. No caminho, encontrou a zebra. Para tirar a dúvida, resolveu confirmar:

– Amiga zebra, qual é a cor do amor? Será que é branco?

E a zebra, sem pensar muito, deu sua resposta:

– Não, o amor não é branco não! Eu acho que o amor é tão belo, que só pode ser cor-de-rosa!

“Cor-de-rosa? Como os flamingos!”, pensou o elefantinho cinza. “Vou perguntar a eles se eles são da cor do amor!”

E lá se foi mais uma vez pela floresta o curioso elefantinho cinzento. Chegando no rio, perguntou ao flamingo:

– Amigo flamingo, qual é a cor do amor? Será que é rosa como você?

– Não, não pode ser! O amor deve ser laranja como o pôr do sol à tardezinha!

“Oh, não”, pensou o elefantinho cinzento, “outra cor…”

Já era fim do dia. Desanimado e cansado, o elefantinho cinzento teve uma grande ideia:

– Já sei a quem perguntar!

Despediu-se do flamingo com suas pernas compridas, passou pela zebra na beira do rio e a agradeceu. Continuou seu caminho.

Foi até a pedra onde estava o leão, mas ele já havia encontrado uma sombra em outro lugar para continuar seu descanso. Tentou despedir-se também do tigre, mas ele já havia corrido atrás da caça.

Chegando à beira da água, molhou a pata e disse à sua mãe:

– Mamãe, será que alguém sabe qual é a cor do amor? Eu já tentei todas as cores, da grama às flores, do céu às nuvens, e até o sol lá em cima… Mas ninguém soube me dizer a cor do amor.

A mãe, com toda a delicadeza e compreensão disse:

– Qual é a cor do amor? Eu lhe digo, filhote: é tão escuro como a noite, tão brilhante como o sol. Pense numa cor e ali está o amor! O amor é toda cor, é tudo em todo lugar.

– Hã?

E a mãe continuou:

– Qual é a cor do amor? São todas as cores à nossa volta, porque nada mais importa quando você encontrou o amor!

O elefantinho cinzento ficou tão contente e satisfeito com a resposta, que correu para junto da mãe e deu-lhe um abraço!

Mariana Tambara

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Aprendendo a cortar

A professora de Artes da minha filha disse que ela estava com dificuldade de cortar papel em formas circulares e pediu para eu ajudá-la em casa, pois estavam fazendo isso em aula e ela estava incomodada por não conseguir.

Em casa, comentei com minha pequena que precisaríamos treinar mais o uso da tesoura para ela conseguir fazer a atividade da escola sem ter tanta dificuldade como vinha tendo. Ela concordou, mas quando chegou a hora de começar, não gostou muito. Não queria assumir (para ela mesma) que não sabia.

Escolhi algumas imagens de revista. Ela começou a cortar aquelas que apresentavam linhas retas. Fez tudo direitinho. Depois de um tempo disse a ela que precisaria, agora, tentar cortar imagens com curva. Encontrei e separei duas figuras que se repetiam na revista e pedi que escolhesse uma das duas para recortar.

Contrariada, fez o primeiro corte. Quando terminou, ficou decepcionada com o resultado. Cortou um círculo da revista, também não gostou. Percebeu que realmente precisaria melhorar. Conversamos um pouco e perguntei se ela queria que eu segurasse sua mão para mostrar o movimento. Ela respondeu que sim e, assim que terminamos o círculo, pediu que eu desenhasse outros para ela tentar. Tentou uma vez, tentou outra, e mais outra… Acabou pegando gosto, ao ver que a cada tentativa o resultado era melhor.

Em princípio, fiquei com medo de estar exagerando, forçando-a a fazer algo que não fosse uma necessidade dela, ou cobrando algo que ela não pudesse oferecer naquele momento. Porém, resolvi tentar e vi que foi importante insistir e não deixá-la desistir!

Ao final, quando vi que seus dedos já estavam vermelhinhos diante de tanta empolgação, perguntei se ela gostaria de recortar a imagem igual à primeira. Ela concordou e ficou muito feliz ao comparar os resultados.

Em homenagem ao esforço e para guardar esta conquista, fiz um registro que a deixou muito contente. Compartilho com vocês:

Mariana Tambara

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Educação proibida

Esta semana assisti a um documentário que foi lançado há pouco tempo chamado “Educación prohibida”. Enquanto assistia, não tive como não pensar nas escolas por onde passei. Ele defende a educação a partir das múltiplas linguagens, critica o sistema educacional e valoriza a preocupação com o espaço e a arquitetura da escola, por acreditarem ser ele fundamental na formação do aluno.

Foi uma delícia assistir às mais de duas horas de exibição, reconhecendo que aqui, pertinho de nós, há lugares como os propostos por outros países da América Latina e Espanha. Foi bom também ouvir tantos educadores e estudiosos validando aquilo que acredito como educação de qualidade!

Sei como não é fácil brigar com as normatizações, com as burocracias às quais as escolas são submetidas e, além e apesar disso, manter a confiança dos pais/famílias de que é possível uma educação plural, inclusive nos ensinos Fundamental e Médio. E fico muito contente ao pensar que mesmo assim há lugares que dão conta disto.

Por este motivo e por tudo o que acredito, continuo admirando o trabalho da Escola Carandá e da Escola Viva! Levo para onde vou as experiências vividas durante o período em que fiz parte destas escolas.

Torço para que este trabalho continue crescendo não só lá e que ganhe cada vez mais espaço em meio a tantos modelos escolares tão “esquizofrênicos”.

Vale pena assistir ao documentário e propagar a discussão:

Espero que gostem e que seja útil a vocês!

Mariana Tambara

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Inclusão: o que isso significa?

Acabei de descobrir um belíssimo texto, mesmo que por um caminho torto. Vou explicar:

Todos os dias, os canais de comunicação colocam em pauta a baixa audiência do novo programa de Fátima Bernardes. O tempo todo procuram argumentos para o criticar. O argumento de hoje me chamou à atenção por se tratar de um assunto que me instiga, me encanta e pelo qual tanto brigo: a inclusão.

Ao longo da notícia postada pela Folha, a autora diz que a jornalista Patrícia Trindade, mãe de uma criança autista, não gostou da abordagem do debate sobre inclusão e que o programa tratou de modo superficial a questão e que apresentou estereótipos.

Realmente deve ter sido, mas o texto de Patrícia é muito mais do que uma crítica à Fátima e ao “Encontro”! Ela traz um olhar, uma crítica, uma leitura que devem ser divulgados, discutidos parte a parte e disseminados.

É com grande satisfação e com o cuidado de não ser “superficial”, como a Folha também foi, que posto o texto dela na íntegra!

SEGUNDA-FEIRA, 9 DE JULHO DE 2012
Mães Especiais: Desencontro, com Fátima Bernardes

Na última quinta-feira, foi ao ar uma matéria sobre inclusão no programa Encontro, da Fátima Bernardes. Desde que a produção do programa contactou a Divertivendo, escola em que o Luca estuda, e autorizamos a realização de imagens e ficamos sabendo do empenho da equipe que ficou das 9h às 17h na escola gravando depoimento e fazendo imagens das crianças, criamos uma espectativa muito grande em relação ao conteúdo do material que seria exibido. Falar sobre inclusão em uma TV aberta, com o prestígio de uma jornalista do quilate da Fátima Bernardes, é uma chance de ouro para expor os nossos problemas, tocar na ferida da vergonha que é a inclusão nesse país e chamar a atenção de autoridades, diretores de escolas, professores e pais de alunos neurotípicos para o fato de que todos só têm a ganhar ao conviver com as diferenças.

Bom, é com imenso pesar que digo que fiquei muito decepcionada com o programa. Como jornalista, achei que foi superficial. Faltou, no mínimo, ouvir todos os lados. É básico. Você aprende no primeiro período de faculdade. Mesmo se não aprendesse, é o que diz o bom-senso. Como mãe de criança especial, fiquei triste. E revoltada.

Não vou citar nomes. Conhecia (mesmo que de facebook ou de listas de discussão no yahoo) boa parte dos entrevistados e das pessoas que estavam ao vivo. Em primeiro lugar, o tema é sério e foi tratado em meio a comemorações, piadinhas e entradas ao vivo de torcedores e jornalistas sobre a conquista da Libertadores do Corinthians na noite anterior. Nada contra os corintianos. Sou casada com um, o meu filho mais velho, o Thiago, de 5 anos, faz parte do “bando de loucos” e estou tentanto trazer o Luca, meu caçula de 4 anos, se manter fiel ao meu time do coração, o Atlético-MG. Mas, as entrevistas e as matérias gravadas eram interrompidas toda hora com piadinhas e depoimento das pessoas nas ruas de São Paulo sobre o Timão. Completamente fora de contexto.

O programa é ao vivo e o minuto na Rede Globo custa muito caro. Sabemos disso. Por isso, as pessoas que fossem escolhidas para falar, tinham de realmente dar um quadro do que é a inclusão no Brasil. Entrevistaram um senhor de um órgão público qualquer, que disse com todas as letras que existem sim programas públicos de atendimento a autistas e outras síndromes no Rio de Janeiro.

Meu senhor, existem dois: o Cema, na Av. Presidente Vargas, cuja lista de espera é de 70 crianças e existe o Instituto Fernandes Figueirae, da UFRJ, em Botafogo, que já não aceita novos pacientes há mais de dois anos. Conheço ONGs que cobram quase o valor das sessões normais. Outras são gratuitas, mas exigem que você tenha renda familiar de um salário mínimo! Realmente, quem ganha mais do que R$ 600 por mês já pode pagar todo o tratamento para os seus filhos autistas! Os profissionais cobram de R$ 70 a R$ 200 por sessão. Os planos de saúde reembolsam, quando reembolsam, R$ 25 de consultas e o número de especialidades é limitado.

Uma criança autista precisa de 15 a 20 horas semanais de terapia – fora a escola -, com fono, terapeuta ocupacional, psicóloga, nutricionista, psicomotrista e alguma intervenção sensorial. É o mínimo. O ideal é que tenha ainda equoterapia, ginástica olímpica, natação, psiquiatra e terapias especializadas como ABA, Floortime, DIR e outros. Tudo isso é gratuito em países como os Estados Unidos e Austrália, por exemplo.

Escolheram uma mãe para falar no programa (não estou criticando a mãe, mas a escolha), que tem uma criança hiperléxica, que fala e lê desde os dois anos. Tem problemas na sociabilidade e por isso está no espectro autístico. Mas, de novo, sem criticar, nem querer comparar a dor de cada um, isso não traduz, nem de longe, o drama da maioria dos autistas e das suas famílias. A maioria não fala na primeira infância. 50% não vão falar nunca. A alfabetização é um custo, algo muito difícil para eles. A figura do autista que a gente conheceu no filme “Rain Man”, que decora a lista telefônica, faz contas absurdas de cabeça e memoriza tudo o que vê pela frente, representa menos de 10% dos casos. Esses são os conhecidos “savants”, que têm uma inteligência acima da média.

Fiquei triste, porque o programa reforçou duas coisas que as pessoas de maneira geral pensam: que inclusão é fácil de se fazer (é só jogar uma criança diferente numa sala de 25 alunos e pronto!) e que os autistas são pessoas privilegiadas, com uma inteligência fora do normal, que só não conseguem se expressar e se relacionar direito. Afinal, tem muita gente famosa autista: Einstain, Bill Gates, Leonardo da Vinci… sim, todos esses estão nos 10% do Rain Man.

Inclusão poderia ser fácil de se fazer, se vivêssemos em um mundo que tolerasse as diferenças, o que não é verdade. Nossa sociedade discrimina quem é magro demais, gordo demais, preto demais, asiático demais, branco demais, indígena demais, pobre demais, rico demais, feio demais, baixo demais, alto demais….

No dia em que pais de crianças neurotípicas se derem conta que o filho dele vai crescer um ser humano mais tolerante, civilizado e melhor se conviver com a diferença desde novo, a inclusão vai acontecer. Quando as escolas se derem conta que os diferentes precisam de currículo adaptado para continuarem acompanhando os colegas, a inclusão vai acontecer. Estamos a centenas de anos disso… Conheço uma mãe que já foi a mais de 70 escolas para incluir seu filho autista de 14 anos que fala, lê, faz conta e escreve, mas não consegue, por exemplo, fazer conta de raiz quadrada, nem escrever com letra cursiva.

Será que as pessoas têm noção de como é difícil para uma criança que veio ao mundo física, emocional e neurologicamente programada para ter dificuldade em aprender e se socializar (duas coisas que se faz na escola), conseguir escrever, ler, falar e entrar numa sala de aula sem surtar em pânico? E as pessoas querem que ela só siga na escola se souber fazer raiz quadrada???? É demais para mim, sério… A desculpa das escolas é que se ele usar calculadora para esse tipo de cálculo, os outro pais vão querer que seus filhos também usem.

Sim, esses pais existem, minha gente. Tem mãe/pai que tira seu filho da escola se ela tem muito menino “esquisito”. A entrevistada do Encontro contou que um pai ligou para a casa dela dizendo que não estava gastando um dinheirão com o seu filho para ele conviver com gente “doida”. Posso ficar aqui até amanhã contando casos absurdos que eu ouço de outras mães, companheiras de dor e angústia nos meus grupos de discussão na internet e na vida real. O Luca fez 4 anos agora. E tenho medo do que ele e a nossa família vamos encontrar pela frente no quesito inclusão. Mais: tenho medo do bicho que eu vou virar quando me deparar com esse tipo de coisa, esse tipo de pai, esse tipo de escola, esse tipo de professora… Como boa mineira, dou um boi para não entrar na briga, mas também dou uma boiada para não sair! Na verdade, essa é uma briga na qual já entrei. E de cabeça.

A primeira escola que o Luca frequentou, onde ele ficou seis meses, me ligava para buscá-lo mais cedo quase todos os dias, pelos motivos mais estapafúrdios: porque ele não queria ficar de tênis (no calor de matar desse Rio de Janeiro), porque ele fazia birra (claro, na primeira birra que ele fez, a professora-ajudante o levou para o parquinho e ele descobriu que esse era o caminho mais fácil para se divertir)… e por aí afora. Quis colocar uma mediadora, mas eles não aceitaram. Sugeriram, nas entrelinhas, que eu o medicasse. Medicar uma criança que não tinha nem 3 anos!!! É esse o país da inclusão. Que manda dopar suas crianças para que elas entrem em sala quietas, mudas, sem falar, sem aprender, sem evoluir.

Não existe inclusão nesse país! De forma geral, o quadro é assim: Os pais de filhos neurotípicos fingem que aceitam as diferenças, as professoras fingem que estão preparadas, a escola finge que está confortável com a presença desse “ser incômodo”, o governo finge que tem programas de especializados e gratuitos, e nós, mães e pais especiais, fingimos que não dói ver nosso filhos à margem da educação. Pensando bem, agora, depois desse post em tom de desabafo, a coitada da Fátima Bernardes não tem culpa do que aconteceu no “Desencontro” da última quinta-feira. E falo isso sério, sem ironia. O programa dela foi, na verdade, o retrato da inclusão no Brasil: superficial, nada objetivo, com pouco tempo para discussão e mais preocupado com o futebol do que com a educação!

Até a próxima,

Mariana Tambara

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Dicas culturais para curtir as férias com as crianças

 

Antes de acabarem as aulas, a equipe de professores da escola onde trabalho listou diversas dicas culturais que podem ajudar às famílias a proporcionar atividades gostosas a seus filhos. Resolvi colá-las aqui para que mais gente tenha acesso. Para mais detalhes, basta clicar nos links:

 

1. ANIMA MUNDI Festival Internacional de Animação do Brasil;

2. ITAÚ CULTURAL;

3. MAE USP (Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo).

4. MAM MUSEU DE ARTE MODERNA DE SÃO PAULO;

5. MASP MUSEU DE ARTE DE SÃO PAULO;

6. Catavento Cultural e Educacional;

7. Museu da Língua Portuguesa;

8. Livrarias;

9. Teatro;

10. Atrações do Parque do Ibirapuera;

11. Museu do Futebol (veja roteiro de visita).

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